Na busca por mais público, companhias de teatro do DF apostam em inovação

20150517193708828137iA crise gera reação. São durante os árduos momentos que surgem as mais fortes expressões. Assim tem sido com a cena teatral de Brasília. Apesar da degradação dos espaços públicos, atraso em pagamentos de editais e da falta de políticas públicas de fomento — heranças do governo anterior — a classe artística da cidade não se acovarda. A cada semana, novos espetáculos estreiam, os centros acadêmicos de artes cênicas efervescem, o debate toma corpo.

Se não há palcos, que se tome a rua, como faz a Cia. Andaime. Sem local para ensaios, as entrequadras viraram local de construção e experimento. Se não há incentivo público, os integrantes do gripo Tripé estão dispostos a vender tudo para que a nova peça não morra ainda antes da primeira apresentação. Se o mercado ainda se revela restrito (apesar da recente e inquestionável expansão), que se busque outros centros, como fez o pessoal da Cia. Teatro dos Rumos. Os cinco atores do grupo se mudaram juntos para o Rio de Janeiro, sem jamais esquecer as raízes.

As três trupes de Brasília recorrem à criatividade para driblar alguns velhos clichês do panorama cênico da capital. Até quando as peças serão assistidas somente pelos colegas da classe artística, amigos e familiares? Até quando o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) favorecerá burocracia em vez da qualidade artística? Quando será possível encarar uma temporada a partir da bilheteria?

Arte por toda parte

A única vez que os atores da Cia. Andaime fizeram uso de um palco foi ainda durante a faculdade, quando eles ocupavam as instalações da Universidade de Brasília (UnB). Desde então, preferem a rua. “Sempre pensamos no experimento da espacialidade”, explica Leonardo Shamah, um dos integrantes do grupo, que está completando oito anos de trajetória em 2015.

“Outro pressuposto é a problemática dos palcos. A ausências de espaços”, acrescenta. Assim, a Andaime quebrou o paradigma dos espaços tradicionais e tomou as ruas do Distrito Federal. Por meio de intervenções urbanas e propostas cênicas de aproximação, eles levaram espetáculos para o metrô, para as praças, vielas e parques.

“Claro, nosso objetivo é ser assistido. Estabelecer esse diálogo. Várias de nossas peças não foram vistas somente pela classe artística, mas pelos mais diversos públicos, de todas as cidades do DF”, comenta Leonardo.

Vende-se um espetáculo

Apesar da tenra idade dos integrantes, o grupo Tripé já conhece as dificuldades de se levar um projeto aos palcos. Ana Luisa Quintas, Gustavo Haeser, Davi Maia e Miguel Peixoto, todos na casa dos 20 anos, estão no segundo espetáculo. Da mesma maneira que na primeira montagem, eles não contam com qualquer incentivo público.

O novo espetáculo surge a partir de uma iniciativa pouco recorrente. Eles resolveram colocar tudo à venda. Abriram uma loja virtual e disponibilizaram uma série de artigos e produtos. Eles vendem roteiros, figurinos, cenas personalizadas, desenhos. Mas há opções mais criativas, como uma aula de yoga com Gustavo Haeser ou uma carona com Ana Quintas.

“Vamos nos vender! A gente já faz isso todo dia. Estar no palco é um pouco disso”, sugere Ana. “Praticamente, tudo! Propostas mais ousadas serão consideradas, mas o valor será bem mais alto”, completou, aos risos.

Rumos cariocas 

Em 2013, por conta de um programa de mobilidade acadêmica, os cinco artistas que integram a Cia. Teatro dos Rumos — Éryca Gonçalves, Gabriel Borges, Lairce Dias, Lucas Liér e Nathy Torres — trocaram a UnB pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).
Dispostos a levar a arte adiante, animaram festas, deram aulas e ministraram oficinas, até que os espetáculos tomassem forma.

“A cada espetáculo, a gente se reveza nas funções de ator, diretor, produtor, a partir das afinidades de cada um”, conta Gabriel, que também é autor.

“Nenhum dos nossos projetos recebeu patrocínio. Não dá para esperar ser contemplado sempre. Essa expectativa, inclusive, enfraquece”, observa Lairce.

Eryca celebra a diversidade do Rio: “Em Brasília, éramos muito vistos por amigos e familiares. Aqui, esbarramos com um público maior, formado por desconhecidos dispostos a conhecer nosso trabalho ”.

Fonte: Correio Braziliense

 

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