Ibaneis crê que Bolsonaro teve covid

Nos 60 anos de Brasília, governador fala sobre a alegria de administrar o DF, mesmo nos difíceis tempos da pandemia, e comenta sobre os atos do presidente

“Acho que Bolsonaro pegou o vírus” diz: Ibaneis Rocha

O governador Ibaneis Rocha não tem receio de dizer o que ele acha que faz com que o presidente Jair Bolsonaro resolva sair às ruas desafiando o novo coronavírus e convidando as demais pessoas a fazerem o mesmo.

“Eu acho que o presidente já contraiu o vírus, teve a covid-19 numa versão leve e se acha agora imune”, disse o governador.

Brasília chega hoje aos 60 anos tendo pela primeira vez um governador nascido na capital federal. As circunstâncias da comemoração provocam em Ibaneis um misto de alegria e tristeza. Alegria por estar à frente do governo do Distrito Federal neste momento e perceber que a cidade está madura para mais 60 anos, desde que corrija alguns rumos. A questão do emprego, na sua visão, é, por exemplo, fundamental. E tristeza pelo fato de o isolamento não ter permitido a Brasília comemorar esta data como deveria.

Brasília completa 60 anos no momento que, pela primeira vez, ela é administrada por alguém que nasceu em Brasília. É um sinal do amadurecimento da cidade?

Brasília é uma cidade que foi constituída por todos os povos deste país. Nós temos aqui um pouco de cada pedacinho deste país. Chegou um momento em que as pessoas que vieram para cá e aqui tiveram os seus filhos e os vêem assumindo postos em todos os locais da administração pública. Eu tive a honra de ocupar dois cargos sendo o primeiro nascido em Brasília. Eu fui o primeiro presidente da OAB nascido em Brasília – OAB que completa 60 anos agora em maio. E agora o primeiro governador nascido em Brasília. Então, é um prazer muito grande você ter a honra de governar a cidade onde você nasceu. É muito gostoso governar esta cidade. Eu estou muito orgulhoso de estar aqui sentado nesta cadeira, mesmo neste momento de dificuldade. A gente comemora hoje com o espírito de alegria, por ver que Brasília cresceu, se desenvolveu. Mas com um certo grau de tristeza.

Não só pelo que estamos vivendo na nossa cidade. Mas pelo que o país está passando. A nossa capital nasceu num sonho de Juscelino Kubitschek, mas um sonho bastante real, que era o sonho de integrar o Brasil. De integrar um país que já estava numa fase de desenvolvimento avançado, industrializado, que era o Sul e o Sudeste, para uma região muito pobre e sem desenvolvimento, que eram o Norte e o Nordeste. E aí, quando você vê o país quase todo em pandemia… Mas nós vamos ter o momento certo, quando o país sair dessa crise, nós vamos poder comemorar juntos, o Brasil todo, essa cidade maravilhosa, essa capital brasileira, que tem esse ideário que foi cumprido.

Na sua avaliação, como Brasília amadureceu? Ela chegou bem aos 60 anos?

Brasília passou por uma modificação muito grande nos últimos 30 anos. Ela deixou de ser uma cidade meramente administrativa, como foi pensada. Mas, pela própria constituição demográfica brasileira, ela sofreu os problemas que todas as cidades do país, principalmente aquelas que se desenvolveram um pouco mais, sofreram.

Nós tivemos um adensamento populacional, que não foi culpa de ninguém, pela busca das pessoas por uma melhor condição de vida. O ex-governador Joaquim Roriz conseguiu de certo modo organizar a cidade. Uns o culpam pela distribuição de lotes. Eu não faço isso. Isso seria natural. Se não tivesse sido feito, nós teríamos uma favelização da cidade. Ele conseguiu de certo modo organizar a cidade. Mas isso causou uma determinada demanda que ainda não foi resolvida.

A demanda por emprego. Muito pouco se pensou pelo lado do emprego no Distrito Federal ao longo desses últimos 30 anos. Eu tenho focado muito nisso, buscando trazer empresas para Brasília. O primeiro ano foi um ano de consolidação disso, da questão dos tributos, para que a gente pudesse dar condições às empresas que quiserem vir para o Distrito Federal. Várias delas já estão buscando suas plantas de instalação. Buscando junto a instalação da Biotic, empresa de tecnologia da Terracap, juntamente com o setor privado. A área de distribuição de mercadorias é outra em que Brasília tem um potencial muito forte. Porque nós temos aqui um dos melhores aeroportos, uma malha viária que integra o Brasil como um todo. Nós temos uma condição de pólo logístico de distribuição de mercados para o Norte e o Nordeste.

Outro foco está no turismo, onde também temos apostado muito. O turismo de shows. Por isso, fizemos o Arenaplex. Nós estamos trabalhando uma licitação para o autódromo. Eventos esportivos. Para fazer de Brasília um pólo turístico nessas áreas. É uma cidade linda. É uma cidade a céu aberto. Onde o setor hoteleiro está a poucos metros de toda a área de shows. Outro pólo em que eu também considero que Brasília tem muita condição de crescer é o da medicina. Grandes hospitais, grandes redes hospitalares, têm vindo para Brasília. As pessoas, em vez de buscarem São Paulo, Rio de Janeiro, já estão buscando Brasília como um centro de tratamento de doenças. Como Brasília se expandiu para várias áreas, temos também uma deficiência na questão da infraestrutura. Boa parte dos bairros que foram criados não tiveram uma sequência na questão da infraestrutura.

Essa é outra preocupação que nós temos. VLTs, ampliação do metrô. Nós estamos buscando fazer isso com muito carinho. Eu entendo que Brasília chega aos 60 anos madura para enfrentar seus próximos 60 anos. Com seriedade e com responsabilidade nós teremos muita coisa boa pela frente.

O senhor foi o primeiro governador a adotar o isolamento social. O senhor começou a flexibilizar alguns setores. Não teme que reabrir agora possa ser uma precipitação?

Eu trabalho de forma bastante técnica, mesmo sendo advogado. Eu ouço muito minhas equipe interdisciplinares. No momento anterior, quando surgiu o primeiro caso no Brasil, eu sabia que isso ia chegar a Brasília, pela nossa condição. Uma capital com mais de 180 organismos internacionais, o Congresso Nacional, a Presidência da República, todos os tribunais superiores, uma renda per capita alta, um centro com uma pobreza muito grande próxima. Se eu não tomasse as providências, ia acontecer de forma muito rápida e descontrolada. Então, cerca de 15 dias antes de aparecer o primeiro caso no Distrito Federal, eu já tinha separado um andar no Hospital de Base e um andar no HRAN para atender essas pessoas. Jà tinha feito o isolamento e a preparação de leitos de UTI. Tanto que a primeira vítima da covid aqui no Distrito Federal, uma senhora, está lá internada até hoje, nesse primeiro leito que foi criado.

Quando a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia, eu, naquele momento, analisando os dados que eu tinha em mãos e conversando com os técnicos da Secretaria de Saúde, entendi que se não tomássemos as medidas naquele momento o grau de infecção seria insuportável. Brasília que vive um movimento pendular diário. Então, você teria contato de pessoas que estavam viajando para o exterior com pessoas humildes que trabalham em suas casas ou nos seus gabinetes. E essas pessoas voltariam para os setores onde residem e levariam esse vírus, e ele se espalharia de uma forma muito rápida. Então, eu teria que preparar um isolamento social muito rápido para que não ocorresse uma expansão. Foi uma medida dura, tomada da noite para o dia. Mas foi uma medida que se mostrou acertada.

O senhor se baseou em alguma outra experiência?

Nós tínhamos que estabelecer um modelo. E nós tínhamos no mundo modelos que deram muito errado – o caso mais notório era a Itália – e outros que deram muito certo – como Hong Kong, Singapura e Japão. Singapura tem em torno de 5 milhões de habitantes, e também populações muito carentes próximas do centro muito rico. Então, eu preferi adotar o modelo de Singapura. Então, nós temos a linha de Singapura e a linha do Distrito Federal, e procuramos sempre adotar as medidas observando o que foi feito.No dia da primeira medida, nós tínhamos 1,2 milhão de pessoas que circulavam pelas ruas do Distrito Federal. No dia do isolamento, nós caímos para em torno de 500 mil pessoas. E quando chegaram as medidas de fechamento do comércio, nós descemos para 300 mil pessoas, nível que está se mantendo até hoje. Isso nos deu uma condição de melhorar a saúde, trazer uma coisa que é muito importante, que é a consciência social quanto ao vírus e nos dá um horizonte no sentido da abertura. Tanto que a abertura que foi feita não provocou impacto na curva.

Eu abri todo o setor da construção civil. Eu não tive um caso de coronavírus na construção civil. Eu abri toda a cadeia automobilística do Distrito Federal. Eu não tenho um caso registrado nem de funcionário nem de consumidor. E é bom que se diga que a contaminação vai existir. Nós vamos chegar a um ponto em que 70% da população de Brasília ou do Brasil vai ter tido contato com o vírus.

O que você consegue é diminuir o ritmo para que o sistema de saúde possa absorver isso. Nós vamos reabrir o comércio, mas faremos isso de forma limitada. Eu vou proibir aglomerações, eu vou proibir eventos públicos, eu vou proibir shows, cinema. Estou analisando a questão de bares e restaurantes, porque acho bastante complicado você abrir bar e restaurante, por conta do uso de máscara. Cinco dias antes da reabertura, eu vou baixar um decreto determinando que todo mundo use máscara. Nós vamos criar aí uma cultura para proteger a população. Nada disso está sendo feito de forma que não seja calculada, pensada, analisada por todos os técnicos, para a gente dar segurança à população do Distrito Federal.

Quais as projeções que o senhor faz para os próximos dias? Os técnicos da área de saúde dizem que ainda não chegamos no pico da pandemia…

No final do mês, nós fechamos 60 dias das medidas que foram adotadas. Eu estou trabalhando que a gente tenha, como seguramos a onda no início, um pico controlado até o final do mês. No início de maio, nós vamos continuar tendo um grau de infecção um pouco maior, mas dentro de uma curva que a rede de saúde tem condições de segurar. Aí, a partir da segunda quinzena de maio, nós vamos começar a ter um decréscimo. Uma coisa que estamos buscando também é fazer uma testagem mais ampla. Subimos de um estoque de dois mil testes para 15 mil testes dentro do nosso estoque. Nós tínhamos uma média de 600 testes diários, nossa média subiu agora para mil testes diários, queremos chegar na próxima semana a 1,5 mil testes diários e ir ampliando de 500 em 500 até chegarmos a 3 mil testes diários até o final do mês.

Com 3 mil testes diários, qual será percentual de pessoas testadas?

Até chegar ao final do mês de maio, que é quando nós pretendemos reabrir as escolas e retornar o serviço público como um todo, nós vamos chegar a 400 mil testes. Aí, nós vamos ter em torno de 15% da população do Distrito Federal testada, que é o nível de outros lugares semelhantes, é o nível de Singapura, o que dá segurança para as medidas que vamos adotar.

Em uma entrevista, o senhor avaliou que o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta tinha feito um bom trabalho, mas que já estava na hora dele sair. Por quê?

Eu tenho um orgulho muito grande de dizer que sempre fui muito bem atendido pelo ex-ministro Mandetta. Eu sempre tive, e quero continuar tendo, um relacionamento muito aberto com ele, porque é uma pessoa de uma inteligência muito grande. O ministro Mandetta trabalhou na área de saúde olhando para aquilo que eu também acho que é o correto: um olhar para a atenção básica. E, durante o ano de 2019, ele teve um olhar muito forte para a atenção básica. Ajudou os estados, o Distrito Federal.

Aí, chegou a covid-19. Neste momento, no meu entender, ele tinha que dar dado uma parada, olhado o mapa do país, olhado as cidades que poderiam ter um grau de infecção maior e ter dado uma atenção para essas áreas. Neste momento, eu acho que chamou mais a atenção o lado do político que o lado do executivo. Aí, ele entrou num embate com o presidente da República, não soube ser o maestro para ordenar todo esse sistema. Então, é neste momento que eu digo que ele errou.

É o que aconteceu aqui no Distrito Federal. O meu ex-secretário de Saúde (Osnei Okumoto) talvez seja um dos melhores técnicos, um dos melhores secretários de Saúde, jamais teria saído da Secretaria de Saúde se não tivesse chegado a covid-19. Porque ele tem um olhar especialíssimo sobre atenção básica, ele conhece muito de saúde, ele é um técnico extremamente preparado. Mas ele trabalha com a visão de futuro. E eu precisava trabalhar com a visão mais emergencial para poder sair dessa crise. Tanto que o Osnei continua comigo como diretor do Hemocentro. Porque eu quero estar ouvindo o Osnei a todos os momentos.

Mas eu precisava de alguém que tivesse uma agilidade maior. Então, eu busquei o Franscisco, que estava no Instituto, onde se trabalha com mais agilidade, para poder fazer esse combate à covid. Cada pessoa tem um lado bom, e você tem que aproveitar esse lado bom, e tem um lado de desacerto.

Todos nós temos as nossas deficiências. No caso do ministro Mandetta, como no caso do Osnei, são excelentes profissionais de saúde, mas não para o caso de uma crise como essa.

O senhor disse também que o presidente Bolsonaro precisava usar mais a caneta. Mas o presidente tem se manifestado numa linha que parece oposta ao que preconiza a Organização Mundial de Saúde, que está sendo seguida pela maioria dos governadores e mesmo dos governantes do mundo. Nesse sentido, não seria meio arriscado se ele usasse mais a caneta?

Se eu discordo de um ministro, eu fui eleito, o ministro foi nomeado. Eu fui eleito governador, o secretário foi exonerado por mim. Se eu discordo do secretário, eu exonero o secretário. Eu não preciso ficar num embate com o secretário. Gerou um clima de Fla X Flu. Você não precisa criar uma instabilidade política num momento desta gravidade para o país. Para quê ficar todo dia num embate, todo dia numa discussão? Mas cada um tem seu estilo. Cada um faz do seu jeito. Eu faço da minha maneira, ele faz da maneira dele. E eu espero que nós continuemos nos entendendo. Eu sou hospedeiro dele aqui no Distrito Federal. Eu espero que ele continue governando o Brasil. Que os ministros dele acertem. Que a gente consiga sair tanto da crise da saúde como da crise econômica.

Agora, como o senhor avalia as atitudes do presidente quando ele sai às ruas, cumprimenta pessoas, vai à padaria, provoca aglomerações?

Fotos: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

Eu tenho direito ao achismo. Eu acho que o presidente já contraiu o vírus, teve a covid-19 numa versão leve e se acha agora imune.

Do ponto de vista prático, do ponto de vista técnico, ele acabou incentivando um revanchismo desnecessário neste momento. Porque ele acabou contrapondo a população que tem um conhecimento muito pequeno sobre o que é o vírus e sobre como se dá o avanço do vírus, contra as orientações técnicas. E quem fica no meio disso são os demais políticos, os governadores, os secretários. Fica um clima desnecessário. Porque eu não sou contra o presidente Bolsonaro, muito pelo contrário, eu tenho tratado ele de forma muito respeitosa. Você pode não concordar com todas as falas, com todos os ministros do governo, mas trato ele de forma muito respeitosa, e quero continuar fazendo assim.

Eu acho que o presidente Bolsonaro foi eleito pela maioria da população – não foi pelo absolutismo da população. E ele tem o direito de implementar as suas políticas. Mas ele também precisa respeitar os demais pensamentos. Porque democracia é isso. Caso contrário, fecha o Congresso, fecha o Supremo Tribunal Federal, e vamos viver numa ditadura. Que eu acredito não seja o que o presidente está buscando.

O presidente tem externado muito a preocupação com a questão econômica. E, de fato, essa é uma consequência mesmo da crise. No Distrito Federal, alguns setores, como bares e restaurantes, já estão com um número alto de demissões. Como o GDF está se preparando para esse efeito econômico do coronavírus?

Todos nós estamos desde o início trabalhando no sentido de recuperar a economia e o país. O presidente desde o início trabalhou em cima de medidas econômicas nesse sentido, reformas. Assim como também fizemos no Distrito Federal. Modificação de tributos, reorganização econômica.

Estávamos num movimento de crescimento da economia aqui no Distrito Federal. Fomos abatidos por um vírus. Agora, é questão de se proteger setores. Agora, ficamos à frente de um dilema que, como disse o novo ministro empossado (Nelson Teich), não pode existir. Não pode existir dilema entre saúde e economia. Eu só vou ter uma economia recuperada no dia em que a população entender que a saúde não está em risco. Não adianta eu abrir todo o comércio se a população não se sentir segura. A população não vai sair para as ruas. As pessoas só vão acreditar na recuperação econômica, e ela só vai existir de verdade, no dia em que tiverem segurança de que estão com a saúde segura.

Recuperação da economia, o Brasil é mestre nisso. Nós já quebramos várias vezes. A economia você recupera. Você só não recupera vidas. Nós temos que ter agora neste momento medidas que dêem condições a esses grupos econômicos que não poderão funcionar como sair da crise.

Para isso, nós vamos utilizar todos os instrumentos aqui no Distrito Federal. Só no Supera DF, criado pelo BRB, nós já colocamos à disposição no mercado R$ 100 milhões a esses setores. Para os setores que não poderão ser abertos a partir de maio, nós vamos ter para eles mais um socorro. Por exemplo, o setor cultural, ele vive do que ele produz. Se ele não produz, não tem como garantir que vai pagar. Então, nós vamos criar um Fundo Garantidor, já está em análise, para que possa garantir essas operações, de modo a que possa sustentar esses setores.

O setor esportivo tem uma característica parecida com o setor cultural: necessita de haver os eventos. O que está se pensando para o setor esportivo?

É um desafio grande, porque Brasília não tem grandes clubes. Por outro lado, não tem grandes folhas salariais. É muito difícil porque não tem garantia nenhuma. Não têm sequer público posterior. Os clubes nem sabem se vão voltar a funcionar este ano. Há alguns setores que realmente vão passar por uma reestruturação no pós-crise.

Quando vai se restabelecer um Campeonato Candango depois? Como é que vai ser o futebol em âmbito nacional? Eu tenho conversado com alguns dirigentes da CBF, e eles também não têm previsibilidade.

A Secretaria de Educação organizou videoaulas para os tempos de isolamento. Estão funcionando?

Eu conversei muito com o pessoal da Secretaria de Educação. Nós já atuamos num ambiente com alguns desafios. Muitos desses meninos já têm uma desconfiança com escola. Então, era preciso criar um vínculo desses alunos com a escola. Eles trouxeram um programa que era mais baseado em coisas de internet. Eu disse: não vai dar certo. Porque a grande maioria não tem internet em casa. E aí eu procurei o presidente do Supremo Tribunal Federal, que foi muito solícito, o ministro Dias Toffoli, e ele me disponibilizou o canal da TV Justiça para fazer essa programação. E aí com isso outros canais de televisão se disponibilizaram, como a TV União. Temos três ou quatro canais que estão transmitindo. Esse conteúdo vai atender? Não, não vai atender. Mas ele vai ajudar. O pai vai dizer: filho, está na hora da aula, senta lá. Não perde, assim, o hábito. E, de qualquer modo, está aprendendo com isso. Não perde assim o vínculo com a escola. Não quer dizer que é uma solução para tudo, que vai resolver todos os problemas. Mas é um caminho.

Apesar do isolamento com a pandemia, é notada uma quantidade grande de policiais nas ruas. Foi uma estratégia do governo?

Nós estamos trabalhando desde o primeiro dia de com um pé no acelerador no que diz respeito aos policiais. A academia vem trabalhando com a formação de novos policiais, e nós estamos fazendo as nomeações no nível máximo. Vamos continuar para que a gente nomeie todos os policiais que fizeram concurso, e vamos abrir novos concursos. A ideia nossa é colocar a maior quantidade de policiais nas ruas, em operação. De outro lado, nós temos um número grande de policiais nos quarteis em serviços administrativos. A determinação minha e do secretário de segurança foi de reduzir esse efetivo. Hoje, você faz a segurança dos quarteis com policiais. Não há necessidade. É para fazer com segurança de patrimônio. Há, então, todo um trabalho para colocar mais policiais nas ruas.

De fato, os dados mostram redução dos índices de violência de um modo geral. Mas há alguns números específicos que preocupam. O aumento do feminicídio e da violência contra a mulher. Como o senhor avalia esse fenômeno?

A lei que estabeleceu o feminicídio focou apenas no lado da pena. Não se preocupou com outros componentes psicológicos que influenciam na criminalidade. Quando se pensou a Lei do Feminicídio, eu estava na Ordem, e cheguei a ser mal interpretado no Conselho da OAB quando eu disse que essa lei deveria ter vindo acompanhada de um aumento de penas e um acompanhamento de outros crimes pré-existentes. Você tem, por exemplo, a ofensa, a lesão corporal leve, a lesão corporal grave. Você quase nunca tem um feminicídio que seja a primeira atitude. Agora, como governador, eu enviei à Presidência da República um projeto para que eles analisem aumentando a pena desses crimes antecedentes. Porque você consegue criar um perfil do crime e consegue dar uma proteção à vítima.

Outra coisa que eu discuto é que a divulgação do feminicídio, como acontecia com o suicídio, ela tem um potencial de aumento desses crimes. Não é você esconder números. Mas quando você pega uma mídia que é bastante diversa, você tem veículos sensacionalistas que colocam o esfaqueamento, o revólver, expõem a traição, expõem aquilo, você pega ali um cidadão que está embriagado, está drogado, e a primeira atitude dele é o feminicídio. Estou falando sem estudos. Mas eu tenho para mim que, como acontecia com os suicídios, estimula.

Da maneira como está, é muito complicado para a Segurança Pública conter um crime que acontece dentro de casa. Se você tiver uma punição maior para crimes antecedentes. Comunicando a Secretaria de Segurança Pública. Botando um botão de pânico na mão dessa mulher. Colocando, no caso de lesão corporal grave, foi isso que eu coloquei no projeto, uma tornozeleira eletrônica no agressor, você tem como distanciar, pelo menos durante um tempo. Que pode significar a vida da pessoa.

Quantas vezes a Justiça cria uma medida protetiva para uma mulher, o homem quebra essa medida protetiva, vai lá e pratica o crime? Se todos os homens colocados em medida protetiva em virtude de violência fosse colocado neles uma tornozeleira eletrônica e a mulher tivesse um botão de pânico, nós teríamos uma condição maior de acompanhar.

Obras de mobilidade podem ser um caminho para aumentar a empregabilidade depois da crise?

Estamos cadastrando várias obras de mobilidade dentro do Distrito Federal. BRT Oeste, BRT Sudeste. Temos uma licitação aberta agora para asfaltamento. Nós vamos fazer agora Operação Tapa Buracos. Temos licitação de calçadas. Estamos com um caderno de obras enorme, todas em fase de licitação ou concluídas, com recursos colocados. A cidade não parou. A cidade está limpa. Tem gente trabalhando. Isso eu estou acelerando de todos os modos possíveis, porque é uma das formas de tirar a cidade da depressão. Nós vamos fazer um trabalho aqui no Distrito Federal, nessa pós-crise, para reanimar toda a população para trazer ela para o nível que estávamos no ano passado.

Nós não paramos aqui no governo, não. Tem muita gente trabalhando. Justamente para evitar que o DF pare. As obras do governo continuam andando. E andando com muita velocidade.

As críticas lhe incomodam?

Não. Eu sei conviver com as críticas de forma muita tranquila. Agora, eu gosto da crítica quando ela tem fundamento. Há muitas críticas que não têm qualquer espécie de fundamento. Sei lá se a pessoa tem lá seus problemas, acorda desesperado e solta a crítica.

O senhor se elegeu governador dentro um fenômeno grande de renovação de rostos políticos. Sua primeira experiência político-eleitoral já foi como governador. Passado esse tempo, como o senhor avalia isso? A falta de experiência anterior pesou em alguma coisa?

Acho que essa experiência anterior não me faltou. Eu acho que cheguei preparado. Não existe nenhuma escola para preparar governadores. A única escola é a escola da vida. Tem que ter inteligência. Apurar os dados, os elementos, tem que saber do que diz. E tem que ter coragem para decidir. Acho que isso é o que faltava antes. A impressão que dá é que as decisões antes eram tomadas pelos outros. A dificuldade que eu encontrei no início foi fazer a máquina administrativa entender isso.

Primeiro, eu tive que fazer os secretários entenderem como é que eu agia para depois fazer subsecretários até chegar na base. Isso demorou um período que chegou até o mês de julho. Eu tive muita dificuldade para fazer essa máquina girar. A partir do mês de agosto, eu acho que todos entenderam como é que eu penso, meu modo de agir, e as coisas começaram a funcionar de forma bem melhor. Então, eu não sinto que faltou nada, não. E eu quero dizer que estou muito feliz de governar o Distrito Federal. Eu estou muito feliz com a decisão que eu tomei.

Pode parecer uma decisão muito difícil, eu largar minha vida privada, largar meus negócios, mas acho que tomei a decisão acertada na minha vida. Acho que não tem nada melhor no mundo do que você ter o poder de transformar a vida das pessoas. E isso é uma coisa que me encanta. Quem vive isso, como eu vivencio todos os dias, você encontra forças que você não sabe que existem.

Então, estou muito feliz. Não faltou nada. E eu não queria ter passado por outro cargo, não. Eu acho que eu entrei no cargo, entrei no lugar certo. Eu acho que se tivesse entrado em outro cargo eu teria me decepcionado e desistido.

A Câmara dá muito trabalho?

A Câmara Legislativa é parceira. A Câmara federal também nos ajuda muito. Há um processo de negociação que é natural do mundo político. Você nem sempre está com toda razão, assim como nem sempre eles estão com toda razão. Mas a gente convive naturalmente. Eu tenho encontrado também um apoio muito positivo do Ministério Público. Às vezes, fazem um questionamento que eu questiono, até porque tenho um conhecimento jurídico diferenciado com relação a outros que sentaram nesta cadeira.

O Tribunal de Justiça tem sido parceiro. O Tribunal de Contas tem nos orientado. Então, eu não tenho encontrado aqui no Distrito Federal em nenhum dos locais nenhuma dificuldade para administrar. Estou muito em paz com todos os parceiros. Têm sido parceiros da cidade.

Fonte: Jornal de Brasília

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