Cerco sobre Valcke está se fechando, diz jornalista que investiga a Fifa

cerco-sobre-valcke-esta-se-fechando-diz-jornalista-que-investiga-a-fifaA recente declaração de um ministro do governo da África do Sul de que o país pode ter pago propina para sediar a Copa do Mundo de 2010 é mais um elo do suposto envolvimento do secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, no escândalo de corrupção na entidade, que está sendo investigada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Para o jornalista escocês Andrew Jennings, que passou os últimos 15 anos investigando a Fifa, Valcke não passa de um chantagista e “não é improvável” que o francês seja o “membro do alto escalão da Fifa” citado no relatório das investigações do FBI, a Polícia Federal norte-americana.
Valcke é bem conhecido dos brasileiros. Durante a organização da Copa do Mundo 2014, ele veio ao Brasil várias vezes para se encontrar com autoridades políticas e checar o andamento das obras dos estádios, que deveriam seguir o chamado “padrão Fifa”. E fez severas críticas à preparação do megaevento. Em 2013, ao reclamar do atraso nas obras, disse, de forma pouco elegante: “O Brasil merece um chute no traseiro”.

De acordo com o jornal “The New York Times”, autoridades federais dos EUA acreditam que Jérôme Valcke foi o responsável pela transferência de US$ 10 milhões da Fifa para contas bancárias de Jack Warner, um dos dirigentes preso na Suíça, em maio. O pagamento é considerada a principal evidência de que Warner, então vice-presidente da Fifa, aceitou suborno em troca de votos para garantir a eleição da África do Sul como sede do Mundial, em 2010.

Início nebuloso

Um dos homens mais poderosos da Fifa, Valcke teve um início de carreira nebuloso na entidade que controla o futebol mundial, segundo Andrew Jennings. No início dos anos 2000, além de chantagear o presidente da Fifa, Joseph Blatter, Valcke traiu o principal patrocinador da entidade. O negócio foi questionado na Justiça, e a Fifa acabou sendo condenada a pagar indenização de US$ 90 milhões.

Como exemplo do que considera ser o perfil de Valcke, o jornalista britânico cedeu com exclusividade ao Fato Online uma carta escrita por Blatter em 2001, na qual ele reclama das ameaças feitas por Valcke à entidade e a alguns “cavalheiros”. “A posição da Fifa não será alterada de maneira nenhuma por qualquer ameaça ou tentativa de chantagem”, diz Blatter em um trecho do documento.

De acordo com Jennings, em 2001, Jérôme Valcke era executivo de uma empresa francesa de telecomunicações que pretendia comprar a falida ISL – empresa de marketing esportivo que negociava com a FIFA contratos de TV e promoção da Copa do Mundo. Auditores do conglomerado para o qual Valcke trabalhava investigaram as contas e, subitamente, desistiram do negócio. Para Jennings, o grupo de Valcke teria descoberto um esquema de propinas e teria tentado renegociar os contratos com a Fifa.

Meses depois, o francês recebeu a carta de Blatter reclamando da chantagem. Em 2003, contudo, Jérôme Valcke foi surpreendentemente contratado por Blatter para comandar o marketing da Fifa! “Como?”, questiona, de forma sarcástica, o jornalista escocês.

No novo cargo, Valcke não perdeu tempo. Comandou a negociação com a Mastercard, empresa de cartões de crédito que patrocinava a Fifa havia 16 anos, para, depois, entregar a conta à concorrente Visa. Foi um escândalo internacional. A Fifa foi processada na Justiça dos Estados Unidos e Valcke foi acusado de mentir para as duas empresas de cartão de crédito durante o processo de negociação. Resultado: a entidade foi condenada e teve um prejuízo de US$ 90 milhões.

De acordo com a sentença, em dezembro de 2006, a juíza norte-americana Loretta Preska considerou que “a conduta da Fifa no cumprimento de sua obrigação e na negociação para o próximo ciclo de patrocínio não se caracterizou de modo algum como fair play (jogo limpo)”. Para a magistrada, Valcke beneficiou a Visa desde o começo. As testemunhas de defesa ouvidas em juízo justificaram a quebra contratual como “mentiras inofensivas”, “mentiras comerciais” e “blefes”.

Uma dessas testemunhas ouvidas por Loretta Preska foi o homem que, agora, delatou o esquema de corrupção da Fifa ao FBI, o norte-americano Chuck Blazer. Ex-membro do Comitê Executivo da entidade, ele admitiu que houve pagamento de propina na escolha das sedes das Copas do Mundo de 1998 (França) e de 2010 (África do Sul). Réu confesso, Blazer já devolveu à Justiça americana quase US$ 2 milhões. “O testemunho do senhor Blazer foi evasivo e não teve credibilidade. Seu testemunho foi fabricado e, por isso, rejeitado”, sentenciou Preska, na época.

Diante da derrota judicial para a Mastercard de maneira tão contundente, Blatter demitiu o francês do cargo de diretor de Marketing. Seis meses depois, de maneira surpreendente, Valcke não só foi readmitido como foi promovido a secretário-geral, o segundo cargo mais importante na estrutura da Fifa, abaixo apenas da presidência.

Quais seriam, então, os motivos para Blatter temer tanto Jérôme Valcke? A expectativa de Jennings é que o FBI apresente as respostas em breve.

Fonte: Fato Online

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here