Via Láctea foi usada como base para construção de Brasília

20171022212425125691eEngenheiros tiveram de olhar para o céu para fazer Brasília crescer no chão do planalto central. As constelações da nata de estrelas que formam a Via Láctea foram fundamentais para que os trabalhadores tivessem certeza da marcação das coordenadas geográficas. Marcas que garantiriam que o Plano Piloto ficaria no lugar certo. Um pequeno deslize e, talvez, os eixos não se encontrassem. Ou então, o Lago Paranoá poderia invadir a cidade. E era assim. Após um dia de trabalho, cálculos e caminhadas no cerrado, depois de o sol se pôr, engenheiros deixavam outra vez as barracas de lona. Atulhados de equipamentos astronômicos, consultavam o céu para conferir no espaço as posições de cada ponto calculado no solo em relação aos astros.
Quem conta a história é o engenheiro e agrimensor Jethro Bello Torres, que, à época, ocupava o cargo de chefe da divisão de projetos e cálculos do Departamento de Estudos e projetos da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, mais conhecida como Novacap. Chefiado por Jofre Mozart Parada, ele foi responsável, também, por elaborar um documento com 125 páginas com a memória dos cálculos necessários para que a concepção da capital federal por Lucio Costa pudesse virar realidade. Batizado de Memória de cálculos da urbanização de Brasília, o levantamento, que está no Arquivo Público do DF, só foi descoberto pela equipe de pesquisadores após o órgão ser convidado para a 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.
O Arquivo Público do DF criou um fundo documental com o nome de Jethro, com a catalogação dos documentos guardados pelo engenheiro. Além da memória de cálculos, o espaço dedicado aos papéis guarda diversas plantas e mapas da região, que revelam todo o trabalho científico-matemático necessário para garantir a cristalização do sonho de Juscelino Kubitschek. Alguns desses mapas mostram, inclusive, os mais de 100 pontos registrados tanto pela equipe, quanto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que serviram de base para o cálculo de onde ficaria o Plano Piloto. Acompanha esse material uma série de entrevistas dadas por Jethro, que, hoje, tem 89 anos e é o único integrante vivo da equipe de Lucio Costa.
Na gravação, Jethro mostra parte dos equipamentos utilizados para fazer as medições e os cálculos. Entre eles, uma bússola e um teodolito, que mostra aos engenheiros os graus de inclinação de um determinado terreno. A medição ajuda a calcular, por exemplo, o quanto de terra deve ser retirado de uma determinada área. “O que o GPS faz hoje, nós fazíamos utilizando as constelações que se apresentavam no céu de Brasília. Era a constelação de Carina, a constelação de Cruxis, que é o Cruzeiro do Sul, a constelação do Triângulo Autrale, que se apresentava, e outras que se utilizavam de acordo com os relatórios enviados pelos engenheiros do Rio de Janeiro (RJ)”, descreve.

Ponto a ponto

Correio teve acesso à partes da gravação. Nelas, Jethro fala com eloquência dos cálculos, mapas, e trata as incursões noturnas em busca das estrelas como uma atividade quase pífia — pelo menos, comum para o grupo de homens indicados por Lucio Costa para tirar Brasília do papel. Todas as marcações e os cálculos feitos pelo grupo e depois comprovados pelas estrelas têm início em um ponto específico, cravado pelo IBGE em meados de 1954. O local em questão, batizado de Vértice nº 8, fica a poucos metros do Cruzeiro no Eixo Monumental, logo atrás do Memorial JK. Um marco, hoje laranja, no chão do planalto. Com base nele e em outras demarcações posteriores do instituto, foi possível definir todos os outros pontos.
“Então, nós fazíamos os pontos na terra, no planeta, detalhadamente, com as coordenadas geográficas, astronômicas. (…) Primeiro vieram os marcos da triangulação nacional. Sobre esses marcos, a empresa Geofoto partiu com uma malha de mais de 140 marcos. Malha quadrada. Mais ou menos plano retangular, por conta do terreno. Mas cada coordenada desses pontos era precisa, porque foram amarradas nas coordenadas (…) do IBGE e conferidas astronomicamente”, recorda. A empresa em questão era a primeira no país especializada em aerofotogramétrica, fotografias aéreas feitas de forma tal a revelar os graus de elevação e sublevação do solo, permitindo um mapeamento, para a época, muito preciso.
Os cálculos da época foram feitos na ponta do lápis, número a número, traço a traço, acompanhados de complexas figuras geométricas que encerravam em si, muitas vezes de forma imperceptível para leigos, superquadras, setores da cidade ou trechos dos eixos.Em diversas ocasiões, os engenheiros, entre eles Jethro, faziam fila diante de calculadoras rudimentares, a manivela, apelidadas de moedores de milho, para facilitar, ao menos, as contas mais básicas de cada equação. No texto, é comum encontrar trechos que variam desde a definição de velocidade das vias, até frases que se iniciam com: “As coordenadas do ponto ‘B’ serão calculadas em duas origens”; e que culmina com uma longa equação. “Isso é interessantíssimo para engenheiros futuros e alguns geógrafos que queiram, dar aulas. Modéstia à parte, esses escritos eram feitos, às vezes, à mão”, comenta o agrimensor.
 

Programação

A 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, começa hoje e vai até domingo (29), das 8h30 às 18h, no Pavilhão do Parque da Cidade. O estande do Arquivo Público do DF exibirá um documentário com imagens da construção da capital e trechos das gravações com o engenheiro e agrimensor Jethro Bello Torres, durante esta semana, das  8h30 às 18h. Na quarta-feira (25), o estande ficará aberto até as 22h, e no sábado e no domingo, das 9h às 18h.

No rumo da fumaça

Diretor de pesquisa, difusão e acesso e historiador do Arquivo Público do DF, Elias Manoel da Silva demonstra encanto ao comentar o documento e a aventura matemática vivida pela equipe de Lucio Costa na aplicação prática dos traços que definiram o desenho da nova capital do país. Ele conta que, além de se aproveitarem da amplitude do céu brasiliense para medirem ponto a ponto cada coordenada geográfica que demarcaria uma localidade específica do plano piloto, os engenheiros também fizeram uso de fogueiras e fumaça para ajudar a equipe de pioneiros a abrir trilhas que, depois, serviriam para conduzir tratores que, por fim, abririam o espaço necessário para cada via e quadrante de Brasília.
“Liderados por Jofre Mozart Parada, os engenheiros eram encarregados de, a partir de cálculos feitos por Augusto Guimarães Filho, escolhido por Lúcio Costa para chefiar a equipe do Rio de Janeiro, botar o projeto no chão. Os cálculos eram enviados via rádio, cheios de estacas, e quem vinha para Brasília trazia os escritos. Por isso, é possível dizer que, além de calculado na ponta do lápis, o Plano Piloto foi todo medido pelas estrelas. Durante o dia, um topógrafo ficava em um local demarcado e outro precisava entrar no cerrado, com uma bússola, para encontrar o próximo ponto. Mas ele andava tanto, que ficava além do campo de visão dos outros. A solução era acender uma fogueira”, recorda Elias.
A fumaça da fogueira mostrava para os pioneiros o caminho que deveriam seguir abrindo a trilha no meio do cerrado, muito antes das primeiras edificações. Ainda assim, muitos se perderam e, em alguns casos, só foram encontrados com o uso de aeronaves. “Os cálculos, então, eram auxiliados pela astronomia e pelos sinais de fumaça — algo tão antigo quanto. É importante lembrar que esse documento (Memória de cálculos da urbanização de Brasília) está à disposição para pesquisadores no Arquivo Público”, diz o historiador.
Fonte: CB

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